Terça-feira, Março 24, 2009

Press Release

Quando se fala em “novas vozes portuguesas” é humano, como o erro, pensarmos nos viveiros televisivos de vozes, aqueles shows de realidade em que cantores aspirantes aprendem e praticam e emocionam-se e apaixonam-se diante dos nossos olhos. Ora esses concursos tiveram o condão de pôr comuns cidadãos, como eu, a saber o que se passa numa aula de canto, a ver o esqueleto das técnicas e dos exercícios e dos objectivos e dos artifícios. A voz , pelo que assisto, será uma espécie de animal selvagem. O domínio e o talento vocais serão um rodeo, o concurso para ver quem se aguenta em cima do mustang a espernear, quem consegue acenar o chapéu enquanto o animal se enraivece entre as nossas pernas.

Esqueçam isso tudo. O talento vocal não é isso tudo, a voz não é nada disso. Desliguem a televisão e esqueçam.

A primeira vez que ouvi a Márcia a cantar acho que suspirei, em parte pela melancolia da canção, em parte de alívio. Alguém que sabe usar a voz sem obrigatoriamente testar os seus limites, que alívio! Uma “nova voz portuguesa” que me faz suspirar de alívio, que alívio! Gosto que me cocem suavemente a nuca e acho que foi mais ou menos isso que a canção da Márcia fez.

Mas nem só de um dotado aparelho vocal isto se trata. Nem só de um aparelho dotado e superiormente manobrado. Também há canções, dedos serpenteantes na minha nuca.

Ainda não conhecia a Márcia pessoalmente quando, por email, me convidou a partilhar com ela o palco do Cabaret Maxime no dia 26 de Março. Seria uma espécie de estreia sua numa sala com esta dimensão e tradição. Demorei 5 segundos a pensar no convite, 6 segundos antes já tinha aceitado, ainda nem tinha aberto o email e já sabia que sim.

Sou, na minha música, imperfeccionista – por condição e por militância – e assim muito me honra a ousadia do convite da Márcia. Um concerto que será de contrastes. Pelos vistos até a gajos que usam reality shows como exemplos acontecem coisas boas.

Samuel Úria, Março de 2009