Jorge Soares, fraquinho antigo defesa central do Benfica, contra maradona.
Parece-me uma injustiça precipitada aquela com que o rei maradona apequena Conan O’Brien perante Jay Leno. A distinção traçada surge demasiado fácil, mesmo que seja um intrincado intelectualismo que a facilite.
Já vamos ao humor, fixo-me agora num parâmetro que me merece relfexão particular: preferir Leno é genuinamente fácil e intelectualmente fácil. Distingo o genuíno do intelectual por registar que tomam neste caso caminhos distintos. Leno é um humorista da velha guarda, inteligente e simpático, dado a pouca ficção sobre a sua personagem de entretenimento – a autenticidade, a inteligência e a simpatia são um cocktail demasiado irresistível para que não colha o afecto de qualquer espectador (daí o prime-time do Tonight Show, uma autêntica instituição americana). Mas esta atitude é tão evidente que desafia a intelectualização da figura de Leno, que pelos vistos requer apenas singeleza de processos. Ora tanto o desafio como a singeleza podem aprazer a dissecação intelectual que acaba por mecanizar a autenticidade, a inteligência e a simpatia. Torna essas qualidades em instrumentos de requinte, o mesmo que o comum apreciador do prime-time jayleniano ignora.
Semelhante dualidade se pode remeter a outras coisas já na premissa distintiva: o Leno que passou a juventude a virar hambúrgueres em cadeias de fast-food e a contar piadas em bares bafientos seguramente gera mais simpatia do que o nerd de Harvard O’Brien. É o caso de sucesso que encanta uma esperançada América versus o literato que se tornou palhaço, escândalo para os literatos.
Curiosa é a referência ao Ricardo Araújo Pereira. O maradona põe-o na facção de Leno (numa mera e indirecta equação exemplificativa, é certo) no mesmo texto em que reduz Conan ao seu humor físico. Na verdade não é preciso puxar muito pela cabeça para desvendar que RAP é o grande humorista físico português deste século. Se há algum pingo de genialidade nos textos de RAP essa encontra-se preferencialmente no escoamento performativo, não no escrito em si. E isto não será estranho ao próprio humorista que parece ter encontrado a fórmula certa no desempenho hiperbólico (nalguns casos o hiper-realista) de tipologias portuguesas. Isto é tudo muito físico, julgo.
Não nos esqueçamos que enquanto a América ria com Buster Keaton e Chaplin já no velho continente se começava a intelectualizar o que de hilariante havia nesses burlescos. Por isso mesmo é que quando a Nouvelle Vague aflorava em França, Jacques Tati voltava às velhas fórmulas da comédia muda sem destoar do vanguardismo crescente. Este elogio ao físico não cai em saco roto; vem ajudar-me a validar a existência de vida inteligente no gesticular exacerbado (Chaplin, Keaton, Laurel, Tati ou O’Brien) e no boneco apalhaçado (Chaplin, Keaton, Laurel, Tati, O’Brien). Já agora, a riqueza do grisalho e do queixo descomunal em Leno parece-me subaproveitada pelo próprio. Por outro lado o potencial talvez menos rico da lividez, altura e cabelo de desenho animado em O’Brien é descomplexadamente recurso recorrente.
Embora seja um claro apreciador de Leno sou obrigado a defender o irlandês do Late Night sobretudo por um motivo muito claro: é certo que me rio com frequência em ambos os talk-shows da NBC, mas o riso compulsivo e convulsivo é-me quase exclusivo do mais compulsivo e convulsivo dos talk-shows, que é o tardio - o de O’Brien. A redução da capacidade e da comicidade à qualidade dos textos no monólogo (para já é preciso também frisar que é absolutamente falso ser Leno a escrever a totalidade dos seus monólogos, se é que alguma piada lhe pertence mesmo) é enganosa sobretudo em dois motivos: primeiro porque o Talk-show não pode ser dissecado apenas pelo momento inicial. O segundo está ligado a dois defeitos apontados pelo maradona a O’Brien que eu contraponho como vantagens. A “secura estival” das piadas do Conan e a “absurda e sintomática tendência de esperar pelo riso dos espectadores” são, a par da caricatural auto-comiseração, dois dos mais preciosos recursos no humor do ruivo. A piada que não funciona chega a parecer desejada, sendo, aí sim, aproveitada superiormente com a genial contra-reacção à má reacção (ou inexistente) do público. Acaba por se desejar mais o escapismo que o anedotismo. A própria insistência dessa fórmula confere maior graça, não porque se estranha e depois se entranha, mas porque se estranha sempre, até à exaustão hilariante. E quem se não um génio pode ser imprevisível na sua própria, definida e aguardada previsibilidade?
Todo o circo grosseiro no Late Night with Conan O’Brien contrasta com o muito mais institucional Tonight Show. Só que a grosseria é uma opção (digamos estilística) ao passo que a não grosseria é um legado: Jay Leno pode ter muita graça e um orçamento superior, mas está limitado pelo referido institucional que o seu programa carrega. O fantasma de Johnny Carson deixará de assombrar o Tonight Show provavelmente só quando o enfant terrible Conan (em tempos nerd de Harvard) assumir o programa em 2009. Agora não sei se os espectadores se vão sentir afrontados pelas auto-afrontas constantes de O’Brien, se vão ficar horripilados pelos fantoches horripilantes costumeiros no Late Night, se vão vilipendiar o mais vil nonsense das personagens conanianas. Jay Leno não vai passar a coroa porque vem um bobo substituir um rei. E os literatos que ranjam os dentes.
Acrescento que fugi aos considerandos sobre as bandas dos dois programas. Acho injusto para uma argumentação quando uma delas é - passo o ligeiro exagero - a melhor e mais cool banda do mundo. Max Weinberg e o seu septeto transpõem a funcionalidade musical no contexto do programa e, convenhamos, o contraste entre a soturnidade de Weinberg e o serpentear hiper-activo de Conan proporcionam uma relação muito mais rica que o mero compinchismo de Jay e o guitarrista Kevin Eubanks. Mas até podia (devia) fugir a todos os demais considerandos. É que no texto do rei maradona há uma inconformidade com a inclusão no mesmo saco de Leno e Jon Stewart. Ora com o Conan a coisa não muda de figura: toda a gente sabe que a rivalidade sempre foi entre Leno e Letterman.